| A crise... ora, a crise! |
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| Questões Ideológicas |
| Sergio Granja |
| Qui, 21 de maio de 2009 15:50 |
Há uma charge (reproduzida ao lado) que diz muito dessa idéia de crise. Afinal, que crise? A crise... ora, a crise!
Heloísa Helena chamou a atenção para a ambivalência do conceito quando, em recente ato do PSol na Cinelândia (Rio, 2/4/2009), disse que para os pobres a crise era permanente. E que esta de agora era a crise dos ricos. O problema, dizia ela, é que, quando os ricos entram em crise, a crise dos pobres piora. E é nesse ponto que a charge ao lado comprova que uma imagem vale por mil palavras. Desde meados de 2007, o sistema capitalista entrou em crise. O que se pretende dizer com isso é que o capital, valor em processo de valorização, entrou em processo de desvalorização. A crise do capital é, por conseguinte, a desmedida do valor, ou seja, o valor que perde a sua medida porque se desvaloriza. É claro que estamos tratando aqui do valor de troca. Mas, é bom que se diga, a mercadoria não é só valor de troca, ela é também valor de uso. Ocorre que, no capitalismo, o valor de uso está subsumido ao valor de troca. E, quando se fala em crise do capital, está se falando do valor que se desvaloriza como valor de troca.Se olharmos o mesmo processo do ponto de vista do valor de uso, a conclusão será diferente. Por exemplo. Temos um enorme deficit habitacional; logo, há carência de novas habitações para satisfazer as necessidades humanas de milhões. Pelo ângulo desses milhões de sem teto, há uma brutal crise. Mas o problema é que o sistema é capitalista e nele só se reconhecem as demandas do mercado consumidor. Essas necessidades evidenciadas pelo deficit de moradias estão fora de mercado, porque o poder aquisitivo dos pobres é baixo e, em consequência, o seu consumo é pouco. Resultado, embora para os pobres haja uma brutal crise de moradia, para a indústria da construção civil não há crise nenhuma, desde que o mercado de imóveis esteja "aquecido", desde que exista gente com dinheiro interessada em comprar imóveis, permitindo desse modo que os capitais aí investidos se valorizem. Assim, a tendência é que o capital gere crises de superprodução em situações de carência: superprodução de moradias em meio a uma população com gente sem teto, superprodução de alimentos em meio a uma população com gente faminta, superprodução de roupas em meio a uma população com gente descamisada, superprodução de sapatos em meio a uma população com gente descalça, etc. É por isso que se diz que o capital tende a gerar uma oferta superior à demanda. É porque o que qualifica a demanda é o poder aquisitivo dos consumidores e não as necessidades humanas postas pela população. Como se pode ver, a crise do capital não se produz por carência, mas por abundância, exuberância; não por falta, mas por excesso, pletora. A híbris do capital não reconhece limites na sua ânsia pelo lucro máximo. E é a hibris do capital que cria suas formas amalucadas: o capital fictício, lastreado em papéis supervalorizados, que, por sua vez, estão lastreados em coisa nenhuma, pura ilusão de valor (mas, atenção, o capital é mestre em vender ilusões!). No seu afã de acumulação, o capital vai transformando tudo em mercadoria. E não apenas a força de trabalho tem o seu valor de troca no salário, mas tudo o mais tem o seu valor em moeda, inclusive os valores morais e a honra pessoal. Como a gente cansa de ouvir, "tudo tem seu preço". E por aí fica claro que a consciência também pode ser comprada. É por isso que se diz que a corrupção no capitalismo é sistêmica: é porque ela está inscrita na lógica mercantil do capital. Quer ver só? Em meio à discussão do financiamento público das campanhas eleitorais, um cientista político, professor de uma universidade gaúcha, manifestou-se contra a ideia e sugeriu, em seu lugar, duas iniciativas: (a) a redução do tempo de campanha (debater pra quê?), como forma de barateá-la; e, de quebra, (b) incentivo fiscal para o financiamento privado das candidaturas. Assim, a privatização das eleições se faria com financiamento público (que já é praxe em termos de privatização!) e o capital estaria no melhor dos mundos, pagando com dinheiro público (renúncia fiscal) a eleição da bancada dos seus sonhos. Desse modo, o capital aperfeiçoaria a já dada mercantilização do voto, aprimorando o mercado eleitoral que aí está. Mas, retomando a observação da Heloísa Helena, assim como há duas maneiras de avaliar a crise ─ do horizonte próprio do valor de troca ou do horizonte próprio do valor de uso ─, assim também há duas perspectivas para o seu enfrentamento: do ponto de vista dos capitalistas ou do ponto de vista dos trabalhadores. Para o capitalista, trata-se de recolocar a economia nos eixos do mercado. E, embora sua predileção seja liberal, seu senso prático não renuncia ao estatismo. Então, o burguês liberal recorre ao Estado para salvar o mercado. Como? De várias formas, mas principalmente transferindo renda pública para a empresa privada em bancarrota, socorrendo a livre iniciativa malsucedida; em suma, privatizando lucros e socializando prejuízos. E o faz com tal ênfase, que não seria abusivo dizer: no final das contas, o capitalismo resulta em uma espécie de "socialismo dos ricos". Assim, o Estado burguês repõe a economia capitalista nos eixos do mercado. Até a próxima crise. Sim, porque a crise é da própria essência do regime do capital: desde 1854, o sistema capitalista contabiliza trinta e quatro crises econômicas. Já, para o trabalhador, é o caso de dar curso a uma reformulação profunda, para que a produção satisfaça as necessidades humanas colocadas pela população, em vez de atender à demanda imposta pelo poder aquisitivo do mercado. O móvel dessa nova economia terá que ser o bem-estar social (no lugar do lucro, que move a economia de mercado). Mas está aí algo muito fácil de conceber e muito difícil de fazer. É fácil de conceber porque salta à vista como uma necessidade para se fazer face à barbárie do capitalismo. É difícil de fazer porque é um ato de vontade que não depende só da disposição militante de uma vanguarda esclarecida e aguerrida, mas do consentimento ativo da imensa maioria da população. Sua dificuldade não se restringe ao terreno da economia nem é de ordem exclusivamente técnica. É uma dificuldade que só pode ser resolvida na esfera da política, da correlação de forças entre as classes sociais. Por isso, requer o empreendimento de uma longa marcha ─ caminhada de caminhantes que abrem caminho ao caminhar ─ através de sucessivos embates reivindicatórios, políticos, ideológicos, culturais, nos quais o que está em jogo é, em última instância, a hegemonia na sociedade (hegemonia = capacidade de dar direção). Para começar uma grande marcha, só é preciso dar o primeiro passo. Esse primeiro passo já foi dado pelos que nos precederam, há muitos anos. Portanto, estamos em meio à marcha. Há aí uma boa e uma má notícias. A má notícia é que sofremos duros reveses nessa caminhada. A boa notícia é que, apesar de tudo, a esperança não nos abandonou e aprendemos ao caminhar. Sergio Granja é pesquisador da Fundação Lauro Campos.
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Há uma charge (reproduzida ao lado) que diz muito dessa idéia de crise. Afinal, que crise? A crise... ora, a crise!
Artur makes this comment
28-05-2009
Marcos Godoy makes this comment
28-05-2009