Aprovada pela Organização das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948, a Declaração Universal dos Direitos Humanos completa 61 anos, é uma importante referência para a maior parte dos povos do mundo, mas, ainda, não passa de uma bela declaração de intenções - e não um fato concreto na vida das pessoas, inclusive no Brasil.
Na última terça-feira, dia 17, o historiador marxista inglês Perry Anderson esteve na Universidade de São Paulo (USP) para participar do debate "A crise capitalista atual e suas consequências para a luta hegemônica". Perry Anderson tem 71 anos, é ex-editor da revista marxista New Left Review, e hoje é professor de história na UCLA, nos Estados Unidos.
Escrevemos este texto sobre a atual crise econômica a apenas alguns dias do aniversário da queda do Muro de Berlim; um evento histórico inesquecível. Referindo-se ao mesmo, o historiador marxista inglês Eric Hobsbawm escreveu nesses dias: "Estritamente falando, a queda do Muro apenas demoliu a crença de que o socialismo de tipo soviético - era uma forma factível de socialismo".
É vasta a pauta de reflexão que se apresenta para a esquerda latino-americana com respeito ao socialismo. Principalmente no que concerne ao modelo de sociedade. Mas não será mais oportuno discutir os meios que nos podem levar à ruptura com o capitalismo? Por tal percurso, não teremos recursos menos infensos ao doutrinarismo para definir os padrões da sociedade que ansiamos construir como contraponto à inevitável perspectiva de barbárie que esse regime nos anuncia?
A Revolução Industrial, no século XVIII, deu lugar à formação de uma nova classe social, que, estruturada como tal, gerou as lutas políticas e econômicas que se desenvolveram durante duas centúrias. A reestruturação do sistema produtivo mudou radicalmente as relações de todo tipo num passado não tão distante. Um intento de análise de quais serão os protagonistas das novas confrontações foi o tema de uma conversa com o acadêmico mexicano Enrique de la Garza Toledo, doutor em Sociologia, docente em seu país na Universidade Autônoma do México (UAM) e dono de um frondoso currículo com antecedentes de casas de altos estudos de México, Estados Unidos e Reino Unido.
A atual crise econômica não se limita a uma questão de estatísticas, nem se reduz ao devastador impacto social do desemprego e da incerteza. Com a debacle mundial, fez água uma particular visão do mundo que pareceu dominante e irreversível com a queda do muro de Berlim. Essa visão se cristalizou em algumas frases famosas como o "fim da história" de Francis Fukuyama, "a sociedade não existe" da primeira ministra britânica Margaret Thatcher ou os 10 mandamentos do consenso de Washington que impulsionavam a liberalização-desregulamentação-privatização global.
Heloísa Helena chamou a atenção para a ambivalência do conceito quando, em recente ato do PSol na Cinelândia (Rio, 2/4/2009), disse que para os pobres a crise era permanente. E que esta de agora era a crise dos ricos. O problema, dizia ela, é que, quando os ricos entram em crise, a crise dos pobres piora.
Na era vitoriana era proibido fazer menção às calças na presença de uma senhorita. Hoje em dia, não fica bem dizer certas coisas perante a opinião pública. O capitalismo exibe o nome artístico de economia de mercado. O imperialismo se chama globalização. As vítimas do imperialismo se chamam países em via de desenvolvimento, que é como chamar de meninos aos anões. O oportunismo se chama pragmatismo. A traição se chama realismo. Os pobres se chamam carentes, ou carenciados, ou pessoas de escassos recursos.
Quem compareceu ao debate promovido pelo DCE da UERJ na quarta-feira, 8 de abril, teve o privilégio de assistir ao encontro de três cabeças pensantes do marxismo brasileiro debruçando-se sobre os mais relevantes aspectos da atual crise geral do capitalismo: Milton Temer, Valério Arcary e Mauro Iasi. Através desses palestrantes, estavam representadas, e muito bem representadas, as culturas das principais vertentes partidárias da esquerda brasileira. Refiro-me, obviamente, àquelas que não se renderam ao canto de sereia do neoliberalismo nem se deixaram cooptar pelo sistema: PSol, PSTU e PCB.
Depois de décadas de ser relegado ao plano do esquecimento e de acusações de incompreensão do mundo real e da dinâmica econômica, as idéias de Karl Marx estão novamente no centro das atenções com a recente e inexorável crise do sistema capitalista. Liberais e neoliberais de plantão estão descobrindo pela força da tragédia econômica que suas idéias não estão tão ultrapassadas como diziam e nem podem ser relegadas como queriam.