| O que Obama não disse no seu discurso do Cairo diz muito sobre a sua política para o Meio Oriente |
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| Internacional |
| Noam Chomsky |
| Sex, 19 de junho de 2009 17:15 |
Noam Chomsky
Limitando-se apenas a Israel-Palestina - não houve nada de substantivo sobre qualquer outra coisa -, Obama apelou a árabes e israelitas para não «apontarem o dedo» uns aos outros e para não «verem este conflito apenas de um lado ou do outro».
Há, contudo, um terceiro lado, o dos Estados Unidos, que têm desempenhado um papel decisivo na manutenção do actual conflito. Obama não deu indicação de que o seu papel deva mudar ou mesmo ser considerado.
Aqueles familiarizados com a história concluirão racionalmente, pois, que Obama continuará na senda do rejeccionismo estadunidense unilateral.
Obama louvou uma vez mais a Iniciativa Árabe de Paz, dizendo apenas que os árabes deveriam encará-la como «um importante começo, mas não como o fim das suas responsabilidades». E como deveria a administração Obama encará-la?
Obama e os seus conselheiros estão seguramente conscientes de que a iniciativa reitera o há muito estabelecido consenso internacional apelando a um acordo de dois estados com base na fronteira internacional (anterior a Junho de 1967), talvez com «pequenas e recíprocas modificações», para usar a expressão habitualmente utilizada pelos EUA antes de se afastar radicalmente da opinião mundial na década de 1970. Foi quando os EUA vetaram uma resolução do Conselho de Segurança da ONU apoiada pelos "Estados de confrontação" árabes (Egipto, Irão, Síria), e tacitamente pela OLP, com o mesmo conteúdo essencial da Iniciativa Árabe de Paz, excepto por a última ir mais além ao apelas aos estados árabes para normalizarem as suas relações com Israel no contexto deste acordo político.
Obama apelou aos estados árabes para avançarem na normalização, ignorando premeditadamente, no entanto, o acordo político crucial que é sua pré-condição. A iniciativa não pode ser um "começo", se os EUA continuarem a recusar aceitar os seus princípios nucleares, e mesmo reconhecê-los.
No pano de fundo está o objectivo de Obama, enunciado mais claro pelo senador democrata pelo Massachusetts, John Kerry, presidente do Comité de Relações Externas do Senado, de forjar uma aliança entre Israel e os estados árabes "moderados" contra o Irão. O termo "moderado" não tem nada a ver com o carácter do estado, antes assinala a sua disposição de se conformar às exigências dos EUA.
O que deverá Israel fazer em troca dos passos árabes para normalizar as relações? A posição mais firme até agora enunciada pela administração Obama é que Israel deveria submeter-se à Fase I do Roteiro de 2003, que declara: «Israel congela toda a actividade dos colonatos (incluindo o crescimento natural dos colonatos)». Todas as partes alegam aceitar o Roteiro, passando por alto o facto de que Israel imediatamente acrescentou 14 reservas que o tornam inviável.
No debate sobre os colonatos passa-se por alto que, mesmo que Israel aceitasse a Fase I do Roteiro, isso deixaria de pé todo o projecto de colonatos que já foi desenvolvido, com decisivo apoio estadunidense, para assegurar que Israel se apossará da terra valiosa no interior do "muro de separação" ilegal (incluindo os fornecimentos básicos de água da região), bem como do Vale do Jordão, aprisionando assim o que resta, e que está a ser fragmentado em cantões por uns salientes da infra-estrutura/colonatos que se estendem para longe para levante.
Também não é mencionado que Israel se está a apossar da Grande Jerusalém, o lugar dos seus mais importantes programas actuais de desenvolvimento, deslocando muitos árabes, de modo que o que resta para os palestinos ficará separado do centro da sua vida cultural, económica e sócio-política.
Também não é mencionado que tudo isto constitui uma violação do direito internacional, como admitido pelo governo de Israel depois da conquista de 1967, e reafirmado pelas resoluções do Conselho de Segurança e do Tribunal Internacional de Justiça. Também não são mencionadas as operações bem sucedidas empreendidas por Israel desde 1991 para separar a Cisjordânia de Gaza, desde então convertida numa prisão onde a sobrevivência é quase impossível, minando ainda mais as esperanças de um estado palestiniano viável.
Vale a pena recordar que houve uma interrupção no rejeccionismo estadunidense-israelita. O presidente Clinton reconheceu que os termos que ofereceu nas reuniões fracassadas de Camp David em 2000 não eram aceitáveis para nenhum palestiniano, e em Dezembro propôs os seus «parâmetros», vadgos mas mais prometedores. Anunciou então que ambas as partes tinham aceitado os parâmetros, embora ambas tivessem reservas.
Os negociadores israelitas e palestinianos encontraram-se em Taba, Egipto, para limar as diferenças, e fizeram progressos consideráveis. Poder-se-ia ter chegado a uma resolução total em alguns dias mais, declararam na conferência de imprensa conjunta. Mas Israel interrompeu as negociações prematuramente, e não foram formalmente reiniciadas. Essa única excepção mostra que se um presidente norte-americano estiver disposto a tolerar um acordo diplomático significativo, pode muito provavelmente ser atingido.
Também vale a pena recordar que a administração de George W. Bush foi um pouco além das palavras na objecção aos projectos de colonatos israelitas ilegais, nomeadamente, retirando o apoio económico dos EUA a esses colonatos. Em contraste, os responsáveis da administração Obama declararam que tais medidas «não estão sob discussão», e que quaisquer pressões sobre Israel para se submeter ao Roteiro serão «sobretudo simbólicas», informou o New York Times (Helene Cooper, 1 de Junho).
Há mais a dizer, mas não alivia o quadro cinzento que Obama tem estado a pintar, com alguns retoques extra no seu muito proclamado discurso ao mundo muçulmano no Cairo no passado dia 4 de Junho.
Fonte: http://infoalternativa.org/spip.php?article956
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