| Fracasso da primeira "revolução colorida": Tienanmen, 20 anos depois |
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| Internacional |
| Domenico Losurdo |
| Qua, 17 de junho de 2009 21:15 |
Praça Tienanmen, Pequim
Atualmente, a grande imprensa de "informação" aplica-se em lembrar o vigésimo aniversário do "massacre" da Praça Tienanmen. Evocações "comovidas" dos acontecimentos, entrevistas com "dissidentes" e editoriais "indignados", numerosos artigos se sucedem e se preparam, com fim de cobrir de infâmia perpétua a República Popular da China e prestar homenagem solene à civilização superior do Ocidente liberal. Mas o que aconteceu realmente há 20 anos?
Em 2001 foram publicados, depois traduzidos nas principais línguas do mundo, o que se denominou "Tienanmen Papers"(1) que, se dermos crédito às declarações dos que os apresentaram, reproduzem os relatórios secretos e os relatos verbais secretos do processo decisório que resultou na repressão do movimento de contestação. Um livro que, sempre segundo as intenções de seus promotores e editores, deveria mostrar a extrema brutalidade de uma direção (comunista) que não hesita em reprimir um protesto "pacífico" com um banho de sangue. Mas ocorre que uma leitura atenta do livro em questão acaba por fazer emergir um quadro bem diferente da tragédia que se desenrolou em Pequin entre maio e junho de 1989.
Leiamos algumas páginas, aqui e ali:
"Mais de quinhentos caminhões do Exército foram incendiados no mesmo momento em dezenas de avenidas. [...] Na Avenida Chang'na um caminhão do Exército parou por causa de um problema no motor e duzentos revoltados assaltaram o motoristas e o golpearam até a morte. [...] Na rua Cuiwei, um caminhão que transportava seis soldados diminuiu a marcha para não atropelar a multidão. Um grupo de manifestantes começou então a lançar pedras, coquetéis Molotov e tochas contra o caminhão, que em determinado momento começou a se inclinar para a esquerda, pois um de seus pneus fora perfurado por pregos que os revoltados haviam espalhado. Os manifestantes puseram fogo então em objetos que lançaram contra o veículo, cujo tanque de combustível explodiu. Todos os seis soldados morreram queimados."(2)
Não apenas recorreram à violência, mas por vezes lançaram mão de armas surpreendentes:
Esses atos de guerra, com recurso repetido a armas proibidas pelas convenções internacionais, cruzam com iniciativas que também fazem pensar, como a impressão deu uma tiragem falsa do jornal Diário do Povo (4). Do lado oposto, vejamos as diretrizes emitidas pelos dirigentes do Partido Comunista e do governo chineses às forças militares encarregadas da repressão:
"Se ocorrer que as tropas sofram ataques e ferimentos até a morte vindos das forças obscurantistas, ou se elas sofrerem de elementos fora-da-lei com barras de ferro, pedras ou coquetéis Molotov, elas deve manter seu controle e se defender sem utilizar suas armas. Os cassetetes serão suas armas de autodefesa e as tropas não devem abrir fogo contras as massas. As transgressões serão imediatamente punidas."(5)
A se acreditar no quadro descrito por um livro publicado e promovido pelo Ocidente, os que são prova de prudência e moderação não são os manifestantes, mas antes o Exército Popular de Libertação!
O caráter armado da revolta torna-se mais evidente nos dias seguintes. Um dirigente de primeiro plano vai chamar a atenção para um fato extremamente alarmante: "Os insurretos capturaram blindados e montaram metralhadoras neles, com a finalidade de exibição." Vão mesmo limitar-se a uma exibição ameaçadora? E, no entanto, as diretrizes emitidas pelo Exército não mudam substancialmente. "O Comando da lei marcial faz questão de que fique claro para todas as unidades que é necessário não abrir fogo, senão em última instância."(6)
Mesmo o episódio do jovem manifestante que bloqueia a passagem de um tanque com seu corpo, celebrado no Ocidente como símbolo do heroísmo não violento em luta contra uma violência cega e indiscriminada, é percebido pelos dirigentes chineses, sempre conforme esse livro citado, numa linha de leitura bem diversa e oposta:
"Nós todos vimos as imagens do jovem que interrompe a passagem do tanque. Nosso tanque parou e mudou de direção diversas vezes, mas o jovem continuava sempre no meio do caminho, e mesmo quando ele tentou subir no tanque, os soldados se contiveram e não atiraram nele. O que diz muita coisa do fato! Se os militares houvessem atirado, as repercussões teriam sido muito diferentes. Nossos soldados seguiram perfeitamente as ordens do Partido central. É surpreendente que tenham conseguido manter a calma numa situação desse tipo."(7)
O recurso a gases asfixiantes ou tóxicos por parte dos manifestantes, e sobretudo a edição pirata do Diário do Povo demonstram que os incidentes da Praça Tienanmen não foram um assunto exclusivamente interno da China. Outros detalhes aparecem nesse livro célebre no Ocidente: "A Voz da América" desempenhou um papel verdadeiramente glorioso em sua maneira de jogar lenha no fogo"; de modo incessantes, ela "difunde notícias sem fundamento e incita às desordens." Mais: "Da América, da Inglaterra e de Hong Kong vieram mais de um Milão de dólares de Hong Kong. Uma parte dos fundos foi utilizada para compra de barracas, comida, computadores, impressoras rápidas e material sofisticado de comunicações."(8)
O que tinham em mira o Ocidente e os Estados Unidos podemos deduzir de um outro livro, escrito por dois autores estadunidenses orgulhosamente anticomunistas. Eles lembram como nesse período Winston Lord, ex-embaixador em Pequin e conselheiro de primeiro plano do futuro presidente Clinton, não cessava de repetir que a queda do regime comunista na China "era uma questão de semanas ou de meses". Essa previsão parecia tanto mais fundada porquanto destacava, na cúpula do governo e do Partido, a figura de Zhao Ziyang, o qual - sublinham os dois autores estadunidenses - deve ser considerado "provavelmente como o líder chinês mais pró-americano da história recente."(9)
Nesses dias, numa entrevista com o Financial Times, o ex-secretário de Zhaio Ziyang, Bao Tong, em prisão domiciliar em Pequin, parece lamentar o golpe de Estado fracassado ao qual aspiraram personalidades importantes na China e nos Estados Unidos, em 1989, enquanto o "socialismo real" caía em pedaços: infelizmente, "nem um só soldado prestava atenção em Zhao"; os soldados "ouviam seus oficiais, os oficiais, seus generais, e os generais ouviam Den Xiaping."(10)
Vistos retrospectivamente, os acontecimentos que se passaram há 20 anos na Praça Tienanmen se mostram como um golpe de Estado falho, e uma tentativa fracassada de instauração de império mundial pronto a desafiar os séculos.
Daqui a pouco vai se chegar a um outro aniversário. Em dezembro de 1989, sem mesmo serem precedidos de uma declaração de guerra, os bombardeiros dos Estados Unidos se jogavam sobre o Panamá e sua capital. Como se vê na reconstituição de um autor - ainda uma vez - estadunidense, os bairros densamente povoados foram surpreendidos em plena noite pelas bombas e as chamas; em parte muito grande, eram "civis, pobres e de pele escura" que perderam a vida; mais de 15 mil pessoas ficaram sem casa; trata-se em todo caso do "episódio mais sangrento" da história daquele pequeno país.(11) Pode-se prever facilmente que os jornais empenhados em espalhar lágrimas sobre a Praça Tienanmen voarão muito alto por cima do aniversário do Panamá, como de resto aconteceu em todos os últimos anos. Os grandes órgãos de "informação" são os grandes órgãos de seleção de informações, e de orientação e de controle da memória.
[1] The Tiananmen Papers, présentés par Andrew J. Nathan, Perry Link, Orville Schell et Liang Zhang, PublicAffairs, 2000, 513 pp. Version française Les Archives de Tiananmen, présentée par Liang Zhang, éditions du Félin, 2004, 652 pp. [2] Op cit, p. 444-45. [3] Op cit, p. 435. [4] Op cit., p. 324. [5] Op cit., p. 293. [6] Op cit., p. 428-29. [7] Op cit, p.486. [8] Op cit., p. 391. [9] The coming Conflict with China, par Richard Bernstein et Ross H. Munro, Atlantic Books, 1997 (245 pp.), p. 95 et 39. [10] « Tea with the FT : Bao Tong », par Jamil Anderlini, in Financial Times, 29 mai 2009. [11] Panama. The Whole Story, par Kevin Buckley, Simon & Schuster, 1991 (304 pp.).
Domenico Losurdo, italiano, é filósofo, historiador e escritor. Tem vários livros publicados no Brasil. Dois deles, Fuga da História? e Gramsci, editados por Revan, que em agosto próximo lançará um terceiro: Nietzsche, o rebelde aristocrata.
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Felipe makes this comment
22-06-2009