A esquerda e a reforma eleitoral no Reino Unido PDF Imprimir E-mail
Internacional
Alex Callinicos   
Ter, 16 de junho de 2009 13:56
Alex Callinicos
Alex Callinicos
Depois da Segunda Guerra Mundial os partidos conservador e trabalhista dominaram completamente a política britânica, ambos compartilhando algo como 96% do voto popular. Segundo algumas pesquisas, poderiam ficar satisfeitos se nas eleições européias dessa semana conseguissem mais da metade do total de votos.


Mas o sistema político continua dominado pelos dois principais partidos. Isso torna muito mais difícil o tratamento da crise causada pelas revelações relativas aos gastos dos deputados. Apesar de estar sendo um antídoto contra todos os partidos convencionais, a resposta continua condicionada por eles.

A primeira etapa da dita resposta consistiu na competência de trabalhistas, conservadores e democratas liberais em minimizar o dano que essas revelações lhes causaram. No conjunto, o líder conservador David Cameron ganhou essa etapa.

Isso se deveu em parte ao fato de que ele se moveu rapidamente para se desfazer de alguns dos principais culpados conservadores. Mas Cameron foi ajudado pela incompetência de Gordon Brown.

Brown não ter afastado Hazel Blears, a rainha da tramóia imobiliária, é um fato extraordinário. Provavelmente se explica pelo medo de que a podridão esteja tão espalhada no gabinete que seria difícil contra-restar as queixas de Blears de terem a tomado como boi de piranha pelos crimes alheios, além de seus próprios.

Agora estamos entrando na segunda etapa, que consiste num jogo de apostas sobre a reforma constitucional. Aqui, os liberal-democratas têm certa vantagem porque dispõem há tempos de uma série de propostas, a mais importante das quais é a introdução da representação proporcional (RP). Graças a isso, seu líder Nick Clegg está costurando uma atenção midiática incomum.

Mas Brown e Cameron também devem aparecer oferecendo reformas. Meu prognóstico é que haverá duas tendências de propostas em debate.

Uma delas é a faculdade de o primeiro ministro convocar eleições gerais quando quiser. Cameron disse que combateria essa proposta, mas aposto que não o fará.

A segunda é o sistema de escrutínio uninominal majoritário de um só turno, que permitiu tanto a Margareth Thatcher como a Tony Blair obterem maiorias eleitorais com dois quintos do voto popular.

Domínio


Essas duas instituições são questões chave que sustentam o domínio dos partidos trabalhista e conservador. Somente se um dos dois perder a esperança de ganhar maioria parlamentar sob esse sistema é que pensaria seriamente em combatê-lo.

Porém, Cameron espera ganhar as próximas eleições e por isso não tem qualquer interesse em mudar realmente o sistema atual. Provavelmente copiará a tática que Blair utilizou na campanha de 1997 e trabalhará com a idéia da reforma eleitoral, quiçá inclusive prometerá uma Comissão Real a respeito para depois abandoná-la certa feita no número 10 da Rua Downing.

O caos do trabalhismo está propiciando chamamentos à esquerda pela representação proporcional, assim como aconteceu com as vitórias conservadoras nos anos 80 e 90. Várias personalidades assinaram uma convocação pela reforma eleitoral, que foi publicado no The Observer domingo passado.

Creio que a esquerda deve estudar seriamente a [proposta de] Representação Proporcional. Mas as propostas mais populares - o Alternative Vote Plus (1) e o Single-Transferable Vote (2) - escoram o sistema de partidos existente. O argumento mais forte para a reforma eleitoral é terminar com o domínio dos grandes partidos, que são cada vez menos representativos.

Mas, se as únicas alternativas provêm da direita radical - United Kingdom Independence Party e o British National Party -, o colapso do sistema de partidos existente poderia piorar as coisas. Atualmente, a esquerda radical na Grã Bretanha está profundamente fragmentada e eleitoralmente muito debilitada.

É uma ironia, já que a crise dos gastos se evidencia com a influência corrupta que o neoliberalismo exerceu na política convencional. É importante que a esquerda não se atrapalhe num debate sobre a reforma constitucional que, em muitos aspectos, serve aos interesses dos grandes partidos.

A tarefa mais importante da esquerda radical é conseguir atuar de forma conjunta, a fim de oferecer uma alternativa coerente e unida aos partidos convencionais carcomidos. Será uma tarefa muito importante depois das eleições européias.


(1) Sob esse sistema a maioria dos candidatos é eleita com maioria simples, mas um pequeno número é eleito com base em listas regionais. Trata-se de corrigir a desproporcionalidade criada pelo sistema de circunscrições de membro único e conseguir um certo grau de representação proporcional.

(2) Sistema de voto preferencial que visa a minimizar os votos perdidos e viabilizar a representação proporcional, garantindo ao mesmo tempo a expressão do voto em candidatos individuais em vez das listas de partido.


Alex Callinicos é membro do Socialist Worker Party (SWP) britânico, é editor do semanário Socialist Worker (www.socialistworker.co.uk) e catedrático de Ciências Políticas na Universidade York (Reino Unido).


Tradução: Katarina Peixoto

Fonte: Carta Capital

 

 
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