Grandes expectativas PDF Imprimir E-mail
Internacional
Escrito por Tariq Alí   
Qui, 13 de novembro de 2008 13:00
Tariq AliA vitória de Barack Obama supõe uma mudança geracional e sociológica decisiva na política estadunidense. É difícil, nestes momentos, predizer seu impacto, mas as expectativas suscitadas entre a gente jovem que deu fôlego a Obama seguem sendo grandes. Talvez não tenha sido uma vitória arrebatadora, mas sim o suficientemente ampla para permitir que os democratas atingissem a mais de 50% do eleitorado (62,4 milhões de votantes) e para instalar uma família negra na Casa Blanca.

O significado histórico deste fato não deveria ser subestimado. Basta recordar o que ocorreu num país no qual o Ku-Klux-Klan chegou a ter milhões de membros capazes de desencadear uma campanha de terror e morte contra cidadãos negros com o apoio de um sistema jurídico discriminatório Como esquecer aquelas fotos de afro-americanos linchados ante o olhar complacente de famílias brancas que desfrutavam seus piqueniques enquanto contemplavam – para dizê-lo na voz memorável de Billie Holliday – "corpos negros balançando com a brisa do sul/ um fruto estranho pendurado das copas"?

Mais tarde, as lutas dos anos 60 pelos direitos civis forçaram a reversão da segregação e pontuaram as campanhas a favor do voto negro, mas também conduziram ao assassinato de Martin Luther King e Malcom X (justo quando este começava a insistir na unidade de brancos e negros contra um sistema que os oprimia a ambos). Tornou-se um lugar comum assinalar que Obama não faz parte desta lista. Não é assim, sem embargo, como o vê 96% dos afro-americanos que saíram de sua casa para votar nele. Pode ser que tenham uma  desilusão,  mas por enquanto celebram a vitória e ninguém pode culpá-los por isso.

Há apenas duas décadas, Bill Clinton advertia seu rival, o progressista governador de Nova Iorque Mario Cuomo, que os Estados Unidos não estavam preparados para eleger um presidente cujo nome acabara em "o" ou em "i". Há apenas uns meses, os Clinton cediam abertamente ao racismo insistindo em que os votantes da classe operária brancos rechaçariam Obama e, recordando aos democratas que também a Jesse Jackson lhe havia ido bem em primarias anteriores. Uma nova geração de votantes lhes demonstrou que estavam equivocados: 66% dos que tinham entre 18 e 29 anos, quer dizer, 18% do eleitorado, votou por Obama; 52% dos que tinham entre 30 e 44  – 37% do eleitorado – fez o mesmo.

A crise do capitalismo desregulado e de livre mercado disparou os apoios a Obama em estados até então considerados território republicano ou de democratas brancos, acelerando o processo que derrotaria à dupla Bush/Cheney e sua turma de neo-cons. Sem embargo, o fato de que McCain/Palin obtiveram, apesar de tudo, 55 milhões de votos, é um recordatório da força que conserva ainda a direita estadunidense. Os Clintons, Jo Biden, Nancy Pelosi e muitos outros pesos pesados do Partido Democrata utilizarão este dado para pressionar Obama com o fim de que permaneça fiel ao roteiro que lhe permitiu ganhar a eleição. Não obstante, os slogans bem intencionados e anódinos não serão suficientes para aceder a um segundo mandato. A crise avançou demasiado e as questões que preocupam os cidadãos estadunidenses (como pude comprovar estando ali, faz umas semanas) têm a ver com o emprego, a saúde (40 milhões de cidadãos sem seguro de saúde) e a moradia.

Só com retórica não é possível afrontar a queda da economia: as dívidas do setor financeiro ascendem a um bilhão de dólares e poderiam ruir mais gigantes bancários; o declive da indústria automotriz gerará desemprego em escala mais ampia e continuarão os efeitos do salto no vazio que hipotecou a Wall Street gerações futuras de norte-americanos. As medidas adotadas em meio ao pânico pela Administração Bush, medidas desenhadas e orquestradas pelo amigo de banqueiros e secretário do tesouro Paulson, privilegiaram uns poucos bancos e foram subsidiadas com fundos públicos.     

Os democratas e Obama apoiaram os acordos e terão dificuldade para desdizer-se e mover-se em outra direção. O aprofundamento da crise, sem embargo, pode forçá-los a fazê-lo. As medidas de austeridade sempre recaem sobre os menos privilegiados, e a maneira pela qual o novo presidente e sua equipe afrontarem o novo cenário resultará determinante para seu futuro.

É um momento horroroso para ser eleito presidente, mas também um desafio. Franklin Roosevelt o aceitou nos anos 30 e impôs um regime social-democrata de regulação da economia, baseado em empregos públicos e numa apelação imaginativa à cultura popular. A existência de um forte movimento operário e a esquerda estadunidense contribuíram de maneira decisiva para o surgimento do New Deal. E a existência dos Reagan-Clinton-Bush, a liquidar seu legado. O que há agora, portanto, é uma economia nova, nuns Estados Unidos desindustrializados e fortemente dependentes das finanças globais.

Tem Obama a visão ou a força para regressar no tempo e avançar ao mesmo tempo? Em matéria de política exterior, a posição de Obama/Biden não difere demasiado da de Bush ou McCain. Um New Deal para o resto do mundo exigiria uma saída rápida do Iraque e do Afeganistão e um ponto final a essas aventuras em qualquer outra região do planeta. Biden se comprometeu praticamente com a balcanização do Iraque. Mas esta alternativa resulta cada vez mais improvável: o resto do país, Irã e Turquia se opõem, se bem que por razões diferentes, à criação de um protetorado norte-americano-israelense no norte do Iraque com bases permanentes dos Estados Unidos. Na realidade, alguém deveria aconselhar a Obama o anúncio de uma retirada rápida e completa. Sobretudo tendo em conta que os custes de ficar no Iraque são agora proibitivos.

O mesmo se pode dizer de um eventual deslocamento de tropas do Iraque para o Afeganistão: só suporia recriar a confusão atual em outro lugar. Como numerosos especialistas de inteligência, militares e diplomatas britânicos advertiram, a guerra no sul da Ásia está perdida. Sem dúvida Washington está consciente disso. Daí as negociações, propiciadas pelo medo, com os neo-Talibãs. Só cabe esperar que os conselheiros de Obama em matéria de política exterior forcem uma retirada também nesta frente.

E que dizer da América do Sul? Seguramente Obama deveria imitar a viajem de Nixon a Beijing, voar a Havana e acabar com o embargo diplomático e econômico a Cuba. Inclusive Colin Powell se deu conta de que o regime havia feito muito por sua gente. Obama terá dificuldade para predicar as virtudes do livre mercado, mas em troca os cubanos poderiam ajudá-lo a estabelecer um sistema sanitário decente nos Estados Unidos. Esta é uma troca na qual a maioria dos estadunidenses gostaria de acreditar. Outros países da América do Sul que previram a crise do capitalismo neoliberal e começaram a reconstruir suas economias há uma década também poderiam oferecer algumas lições.

Se a troca se resolve em que nada mude, então poderia ocorrer que, passados uns anos, aqueles que levaram Obama à Casa Branca decidam que a criação de um partido progressista nos Estados Unidos se tornou uma necessidade.   


Tariq Ali é escritor, membro do conselho editorial de SIN PERMISO; seu último livro é The Duel: Pakistan on the Flight Path of American Power.

Tradução para Sin Permiso: Gerardo Pisarello

Tradução para o português: Sergio Granja

Publicado em The Guardian, 5 de novembro de 2008.

Fonte: http://www.sinpermiso.info/#
 

Itens Relacionados