O triunfo de Obama: um farewell aos mitos PDF Imprimir E-mail
Internacional
Escrito por Gabriel Molina   
Sex, 07 de novembro de 2008 16:17

Barack ObamaO mundo não devia assombrar-se com os mitos que se derrubaram na eleição de Barack Obama como o primeiro afro-americano que chega à presidência. Junto com isso se enterra, como antecipamos, a hegemonia da Máfia cubana de Miami sobre o estado da Flórida.

O trio de congressistas (os Díaz Balart-Ros Lehtinen), que têm sido nos últimos anos o mais recalcitrante bastião anticubano, viu-se isolado junto com o presidente Bush e de quem teve a astúcia de tomar à última hora certa distância: não assistiram à última reunião de Bush em Miami com os ultras cubanos para arrecadar fundos eleitorais e deixaram de fazer finca-pé nas proibições de viajar a Cuba que eles impuseram a Bush em 2004, mas agora estavam se afastando deles os votos de muitos cubanos, inclusive de partidários do partido republicano.

O ninho de corrupção entronizado pelo atual presidente dos Estados Unidos e sua família, em grande medida responsável pela crise financeira e econômica que afeta o país e grande parte do mundo, se foi descobrindo e desmembrando, desde suas próprias entranhas em Miami.

Obama e os democratas da Flórida tiveram a inteligência de compreender que o caminho do triunfo estava pavimentado na necessidade de golpear o poderio mafioso do grupo de batistianos que ostenta o poder político, econômico e financeiro na Flórida. Tiveram o valor de prescindir dessa escabrosa maquinaria, prescindir de seus votos, seus aportes monetários e sua habilidade para a coação e o fraude. Isso não o souberam fazer nem Hillary Clinton nem McCain, os quais preferiram fazer vista grossa sobre a infame jactância do trio do terror e de seu criminoso Conselho Nacional, de haver-lhe burlado a eleição a Gore nas votações de 2000.

Não souberam medir porque uma recente enquete da Gallup arrojou que "só 25% dos norte-americanos aprovam o labor do Presidente Bush. Os democratas da Flórida consideraram cedo que "o próprio trio de congressistas lhes abriu em 2004 a porta para vencê-los, quando convenceram o presidente a restringir ainda mais as possibilidades de ajudar com remessas ou visitar Cuba. Eles não calcularam como a comunidade julgou esta decisão e isso nos deu a oportunidade, pela primeira vez, de competir com os republicanos que a cada dia perdem mais votos", disse durante a campanha Joe García, presidente do partido nesse Estado. Algumas investigações últimas deram García e Martínez com desvantagem sobre os Díaz Balart e sem embargo com ligeira vantagem nos votos de origem cubana. Já davam Obama sobre McCain, entre outras razões, porque o candidato democrata se alinhou com os três candidatos de seu partido contra o trio do terror para censurar as medidas restritivas e anunciar que as levantaria se eleito. Em troca, McCain apoiou as proibições para comprazer seus novos amigos.

A agência France Presse reportou enquanto se celebravam as eleições: "Como ante cada jornada com muito em jogo para o futuro da ilha, centenas de cubanos se reuniram na terça-feira no café Versailles da Pequena Havana de Miami e esperavam o resultado das eleições nos Estados Unidos com o coração dividido pelas sensações. Sobre a rua Oito, coluna vertebral do bairro, Pedro Olivera caminhava disfarçado de Papai Noel com uma bandeira estadunidense numa mão e um cartaz de McCain-Palin na outra. Alex Pérez, de 56 anos e motorista de ônibus em Miami, espera o triunfo de Obama: ‘Eu vivi muito tempo em Nova Iorque e estou em Miami faz 28 anos. Não sou do exílio duro e confio que haverá uma mudança para melhor sem tanta guerra. Os cubanos estão muito divididos nesta eleição, há muito ressentimento para com os que não pensam igual’, queixa-se Pérez, que leva um broche em sua camisa com o rosto sorridente do candidato democrata. ‘Este é o único negro que vota por McCain’, diz Gustavo Márquez, 68 anos, referindo-se a seu pequeno cão Titi, de pelo escuro, que traz atado de uma correia e o sujeita num poste da rua. Claudio, um cubano residente em Boca Ratón (uns 60 km ao norte de Miami) viajou até a Pequena Havana porque não queria perder ‘este dia histórico’. ‘A gente está nervosa com esta eleição, mas eu já preparei tudo para festejar esta noite’, disse. ‘Tenho um champanhe bem gelado para brindar pelo triunfo de Obama’.

A suja história das fraudes hipotecárias no país, na qual o Estado da Flórida está em primeiro lugar, com a família Bush e seus amigos cubanos enormemente envolvidos, forma parte importante do amplo processo que, junto com a guerra do Iraque e outros pecados da família, levaram a economia mundial a uma crise semelhante à de 1929. Esta realidade obrigou McCain em princípios de setembro a admitir que há uma crise e a deixar de apoiar as políticas econômicas e financeiras de Bush.

Desde que McCain se envolveu com a Máfia cubano-americana durante a contenda pela postulação do partido republicano, para aproveitar o impudico poder do grupo, presente em todas as histórias sujas dos últimos 50 anos, desde Watergate e a criminosa troca de drogas por armas na América Central até o assassinato do presidente Kennedy, viemos assumindo que se arrependeria. Os efeitos das más companhias se refletiram nas enquetes e agora nas eleições. Efetivamente, Bush e McCain estavam perdendo a Flórida e com o triunfo de Obama se derrubam ambos os mitos. Muitos pensaram que os norte-americanos não estavam preparados para votar num negro para presidente. Mas é certo que os critérios dos EE.UU. sobre os assuntos raciais mudaram bastante desde que os negros sofreram durante séculos o crime da escravidão e o subseqüente desprezo até as leis que terminaram na década dos sessenta com a segregação, ainda que não com a discriminação. Durante a campanha sempre disse que Powel e Condoleeza Rice, que foram secretários de Estado durante uns 12 anos consecutivos, demostravam-no. A vitória de Obama é um triunfo não só do povo dos Estados Unidos. É também da humanidade, da tolerância, da integração, como o mostra a foto de Obama recém graduado no ensino do segundo grau, abraçado com a avó branca que o criou. Como diria Hemingway: "um farewell à guerra"; como diríamos os cubanos: um adeus aos mitos.

La Habana, 5 de novembro de 2008

Fonte: Granma Digital Internacional

 

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