O 18 Brumário de Louis Bonaparte - Prefácios PDF Imprimir E-mail
História
Marx e Engels   
Seg, 08 de junho de 2009 16:14

Karl Marx
Karl Marx
Prefácio do autor à segunda edição alemã - 1869

Karl Marx

 

Meu amigo Josef Weydemeyer, morto prematuramente, propunha-se a publicar, a partir de 1º de janeiro de 1852, uma revista política hebdomadária em Nova Iorque.   Ele me pediu para escrever para essa publicação a história do golpe de estado.  Fiz chegar até ele, todas as semanas, até meados de fevereiro, artigos intitulados "O 18 brumário de Louis Bonaparte".  Nesse ínterim, o plano primitivo de Weydemeyer fracassou.  Mas ele publica, na primavera de 1852, uma revista mensal intitulada: A Revolução, cujo segundo número[1] era constituído pelo "18 Brumário".    Algumas centenas de exemplares foram então enviadas à Alemanha, mas sem que entretanto pudessem ser colocados em livraria.  Um livreiro alemão, que era tido como um radical avançado e ao qual propus que os difundisse, respondeu manifestando sua repulsa virtuosa a uma proposta tão "inoportuna".

 

Vê-se, pelo precedente, que a obra a seguir nasceu sob a pressão direta dos acontecimentos e que a matéria histórica de que ela trata não vai além do mês de fevereiro de 1852.  Sua reedição atual deve-se, em parte, às demandas de livraria e, em parte, às instâncias de meus amigos da Alemanha.

 

Entre as obras que, mais ou menos na mesma época, tratavam do mesmo sujeito, apenas duas merecem menção: Napoleão, o Pequeno, de Victor Hugo, e O Golpe de Estado, de Proudhon.

 

Victor Hugo se contenta com invectivas amargas e espirituosas contra o autor responsável pelo golpe de estado.  O acontecimento propriamente lhe parece como um raio em céu sereno.  Ele não enxerga mais do que o golpe de força de um indivíduo.  E não se dá conta de que assim ele o engrandece, no lugar de o diminuir, atribuindo-lhe uma força de iniciativa pessoal única na história.  Proudhon se esforça para representar o golpe de estado como o resultado de um desenvolvimento histórico anterior.  Mas, sob sua pluma, a construção histórica do golpe de estado se transforma numa apologia do herói do golpe de estado.  Cai assim no erro dos nossos historiadores ditos objetivos.  Quanto a mim, mostro, ao contrário, como a luta das classes na França cria circunstâncias e uma situação tais que permitem a uma personagem medíocre e grotesca figurar como herói.

 

Uma revisão da obra a seguir retiraria sua cor particular.  Fui, então, levado a corrigir os erros de impressão e a suprimir alusões que não seriam mais compreendidas hoje em dia.

 

O que eu dizia na frase final de minha obra - "Mas, quando o manto imperial cair dos ombros de Louis Bonaparte, a estátua de bronze de Napoleão despencará das alturas da coluna Vendôme" - já se realizou.

 

O coronel Charras foi o primeiro a empreender a ofensiva contra o culto de Napoleão em sua obra sobre a campanha de 1815.  Desde então, e notadamente no curso desses últimos anos, a literatura francesa, em meio às armas da pesquisa histórica, da crítica, da sátira e da ironia, deu o golpe de graça na legenda de Napoleão.  Fora da França, essa ruptura violenta com as crenças populares tradicionais, essa imensa revolução intelectual foi pouco destacada e ainda menos compreendida.

 

No fim das contas, espero que esta obra contribua para afastar o termo correntemente empregado hoje em dia, particularmente na Alemanha, de cesarismo.    Nessa analogia histórica superficial, esquece-se o principal, a saber, que, na Roma antiga, a luta das classes só se desenrolava no interior de uma minoria privilegiada, entre os cidadãos livres ricos e os cidadãos livres pobres, enquanto a grande massa produtiva da população, os escravos, só servia de pedestal passivo aos combatentes. Esquece-se a frase célebre de Sismondi: "O proletariado romano vivia às expensas da sociedade, ao passo que a sociedade moderna vive às expensas do proletariado".  Dada a diferença completa entre as condições materiais, econômicas da luta das classes na antiguidade e nos tempos modernos, as formas políticas decorrentes não podem ser mais assemelhadas entre si do que o arcebispo de Canterbury com o grande padre Samuel.

 

Londres, 23 de junho de 1869.

 

Nota:

 

[1] Na realidade, foi no primeiro número de A Revolução que apareceu a obra de Marx.

 

[MARX, Karl.  Les luttes de classas em France (1848-1850). Le 18 Brumaire de Louis Bonaparte. Éditions sociales, p. 211-213]

 

 

Frederich Engels
Frederich Engels
Prefácio de Frederich Engels à terceira edição alemã - 1885

Frederich Engels

 

Que uma nova edição do 18 Brumário se faça necessária trinta e três anos após sua aparição é a prova de que essa brochura até agora não perdeu nada do seu valor.

 

Com efeito, é um trabalho genial.  Imediatamente após o acontecimento que surpreendeu todo o mundo político como um raio em céu sereno, que foi amaldiçoado por uns com gritos de indignação virtuosa e acolhido por outros como o ato trazendo a saúde de fora da revolução e como o castigo da turba provocado por ela mesma, mas que foi um objeto de surpresa e de incompreensão para todos,  Marx fez dele uma exposição curta, epigramática.  Ele explicava a marcha dos sucessos acontecidos na França desde as Jornadas de fevereiro em suas relações internas, mostrava como o milagre do 2 de Dezembro era o resultado natural, necessário dessas relações, sem precisar tratar o herói do golpe de estado de outra maneira que não fosse o desprezo bem merecido.  E o quadro foi desenhado com uma tal mestria, que todas as revelações feitas depois nos trouxeram novas provas da fidelidade como reflete a realidade.  Essa compreensão notável da história cotidiana viva, essa inteligência clara dos acontecimentos, no próprio momento em que se desenrolavam, é, efetivamente, sem precedente.

 

Mas, para isso, era necessário o conhecimento profundo da história da França, que Marx detinha.  A França é o país onde as lutas de classes foram levadas a cada vez, mais do que em qualquer outro lugar, até a decisão completa, e onde, em consequência, as formas políticas mutantes, no interior das quais elas se movem e nas quais se resumem seus resultados, assumem os contornos mais netos.  Centro do feudalismo na idade média, país clássico, desde a Renascença, da monarquia hereditária, a França destruiu, na sua grande Revolução, o feudalismo e deu à dominação burguesa um caráter de pureza clássica que nenhum outro país atingiria na Europa.  Do mesmo modo, a luta do proletariado revolucionário contra a burguesia reinante se reveste de formas agudas, desconhecidas em outros lugares.  Tal é a razão pela qual Marx não somente estudava com uma predileção especial a história do passado francês, mas também, seguindo em todos seus detalhes a história corrente, reunia os materiais destinados a serem utilizados mais tarde, e, por conseguinte, jamais foi surpreendido pelos acontecimentos.

 

Mas a essa se acrescentava ainda outra circunstância.  Foi precisamente Marx quem descobriu primeiro a lei segundo a qual todas as lutas históricas, quer sejam levadas sobre o terreno político, religioso, filosófico ou em qualquer outro domínio ideológico, são, de fato, a expressão mais ou menos clara das lutas das classes sociais, lei em virtude da qual a existência dessas classes e, por consequência, também seus choques são, a seu turno, condicionados pelo grau de desenvolvimento de sua situação econômica, por seu modo de produção e seu modo de troca, que deriva do precedente.  Essa lei, que tem para a história a mesma importância que a lei da transformação da energia para as ciências naturais, fornece-lhe igualmente aqui a chave para a compreensão da história da II República francesa.  Foi nessa história que ele colocou a sua lei à prova e, trinta e três anos depois, ainda nos faz reconhecer que ela passou brilhantemente na prova.

 

[MARX, Karl.  Les luttes de classas em France (1848-1850). Le 18 Brumaire de Louis Bonaparte. Éditions sociales, p. 215-217]

 

 

Tradução do francês para o português: Sergio Granja

 

 
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  1. Leiam. É super interessante

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