Carlos Nelson Coutinho é um destacado filósofo marxista e professor de teoria política da UFRJ. Discípulo de Lukács, incorporou Gramsci a suas preferências intelectuais. Com vários livros publicados, o professor Carlos Nelson é reconhecido internacionalmente como um dos maiores especialistas no pensamento gramsciano. Ele coordenou a edição das obras de Antônio Gramsci em português, editadas pela Civilização Brasileira entre 1999 e 2005.
Carlos Nelson Coutinho publicou um ensaio em 1979, que saiu em livro no ano seguinte: “A democracia como valor universal”. Nesta entrevista, Carlos Nelson comenta como avalia hoje esse ensaio que alcançou grande repercussão, fazendo a cabeça de muita gente e provocando tanta controvérsia na esquerda brasileira. Daquela época para agora, as experiências históricas fundadas no conceito gramsciano de disputa da hegemonia, ou “guerra de posição”, notadamente as do chamado eurocomunismo, resultaram na acomodação das forças revolucionárias à hegemonia do capital. Não obstante, Carlos Nelson reafirma que, no fundamental, mantém-se fiel aos princípios teóricos ali desenvolvidos, os quais podem ser sintetizados na idéia de que a democracia é indispensável à realização do socialismo e o socialismo é condição necessária ao pleno desenvolvimento da democracia.
Indagado sobre a experiência histórica da Unidade Popular chilena, de se ela talvez não suscitaria a existência de um limite a partir do qual a via democrática imbica num beco sem saída, Carlos Nelson lembrou que o eurocomunismo se alimentou da experiência chilena e ponderou que o golpe militar de Pinochet deveu-se em grande parte à intervenção imperialista que desequilibrou a correlação de forças interna.
Lembramos que Marx fala de um período de transição que seria a "ditadura revolucionária do proletariado" e que o próprio Noberto Bobbio, que está longe de ser um marxista, evoca a “categoria weberiana do status nascenti” para admitir que “o método democrático é um bem precioso mas não para todos os tempos e lugares”. Segundo Bobbio, “existem períodos de risco ou de crise das instituições, (...) nos quais o método democrático não serve e as regras do jogo, se existem, são mandadas às favas”. Com base nisso, instamos Carlos Nelson a avaliar a questão da transição tendo em vista as transformações sociais em curso na Venezuela, na Bolívia e no Equador.
Carlos Nelson considera que a luta pela hegemonia é sempre decisiva. Admite que o processo político não é linear, está sujeito a tensões e a enfrentamentos de classe que podem desbordar o terreno democrático e que a transição ao socialismo é um processo complexo. Ele manifestou apoio a Chaves na Venezuela, mas advertiu contra o risco da “estatocracia” na transição revolucionária.
Num artigo recente, “A época neoliberal: revolução passiva ou contra-reforma?”, Carlos Nelson trabalhou os conceitos gramscianos de “revolução passiva”, ”contra-reforma” e “transformismo”, aplicando-os à análise da nossa atualidade. Na entrevista, ele explicou esses conceitos e a sua avaliação da época neoliberal como um período de contra-reforma.
Carlos Nelson admite que há na atualidade muitas leituras de Gramsci. Lembrando o pós-modernismo de Derrida, arriscamos dizer que a escritura traz consigo uma traição potencial em relação à origem do discurso, um potencial parricídio do autor. A esse respeito lembramos que não foi à toa que Marx chegou a dizer que não era marxista. Indagado se não acha que Gramsci poderia sentir-se desconfortável em face de determinadas linhas de pensamento que reivindicam sua herança hoje, Carlos Nelson disse que sim, e apontou versões do pensamento gramsciano que se afastaram da idéia socialista e são moeda corrente entre os ex-comunistas italianos.
Carlos Nelson declara-se comunista, no sentido de quem aspira a uma sociedade liberta dos ditames do mercado e da relação capital-trabalho ― vale dizer, livre da alienação e da exploração ―, ao mesmo tempo que condena com veemência a experiência do chamado “socialismo real”, que ele conceitua como "uma transição bloqueada". Essa é uma posição que pode ser compartilhada, por exemplo, com os trotskistas. Mas ele se declara favorável a uma estratégia de luta por reformas que radicalizem a democracia. Hoje em dia, qualquer reforma, por mais tímida que seja, já evoca um matiz radical. Carlos Nelson acha que a luta por reformas profundas, ou um “reformismo revolucionário”, constitui uma estratégia genuinamente gramsciana. Ele admira o fato dos trotskistas terem se mantido fiéis ao ideal comunista, mas os considera pouco realistas em suas estratégias políticas. Para ele, o “reformismo revolucionário” não é um oximoro, mas indica um processo de ruptura em direção ao socialismo. Nesse sentido, ele explicita que condena a social-democracia não por ela ser reformista, mas por não ser suficientemente reformista, radicalmente reformista, e acomodar-se à gestão do capitalismo.
Indagado sobre como avalia a crise do neoliberalismo e suas projeções no cenário brasileiro, Carlos Nelson opta por uma posição de cautela que leva na devida conta a fragilidade da esquerda. Ele recomenda que a esquerda se mantenha numa linha em que prevaleça o pessimismo da razão temperado pelo otimismo da paixão revolucionária, ou como diria Gramsci: "pessimismo da inteligência, otimismo da vontade".
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