2010, a partir de hoje PDF Imprimir E-mail
Eleições
Escrito por Milton Temer   
Ter, 28 de outubro de 2008 15:05
Milton TemerO balanço final das eleições municipais revela dados fundamentais para uma perspectiva positiva dos próximos passos táticos do PSOL.  Não é exagero afirmar que, diante das condições adversas em que enfrentamos o processo – materiais e políticas, por conta do consenso conservador em torno do lulismo –, abrimos expectativas bem mais promissoras do que as que tínhamos anteriormente.
 
O destaque, sem dúvida, fica para a vitória impressionante em Maceió. Com uma difícil candidatura à vereança, Heloisa Helena se transformou no pólo de enfrentamento e conseguiu impor uma acachapante vitória sobre um dos mais expressivos segmentos da mais reacionária representação da direita truculenta no país – Renan Calheiros e Collor, à frente.
 
Manchetes de jornais, pichações por toda a cidade, valeu tudo numa campanha demolidora e permanente, pautada em ofensas pessoais de todo tipo. Com recursos parcos, Heloisa conseguiu se sobrepor e transformar seus 7,8% no maior porcentual de votos em todo o país. Numa campanha de vereadora, um resultado expressivo, mesmo para um embate majoritário.
 
Outro índice essencial a considerar: o elevado nível nacional de abstenções e votos nulos e brancos deste segundo turno. Quando o ministro-presidente do TSE Carlos Ayres de Brito, em coletiva após a divulgação dos resultados, manifesta sua estranheza e decepção com os altos índices, faltou no seu comentário o que ele não poderia explicitar.  Pois não lhe cabia tirar ilações políticas para além da condenação da permissividade na utilização das máquinas para a reeleição de boa parte dos prefeitos reconduzidos ao cargo.
 
Cabe a nós registrar que a leitura de tais índices não pode se abster de relacioná-los com a direitização brutal do PT, e a despolitização da política fortemente implementada pela guinada ideológica que o governo Lula consolidou a partir das alianças com vários partidos reacionários. As abstenções, os nulos e brancos têm a ver com a manifestação cidadã contra as disputas entre o "nada" e o "coisa nenhuma". Entre o "seis" e o "meia-dúzia".  Afinal, descontadas as diferenças de estilo, não houve capitais, à exceção de Macapá, onde o embate de segundo turno representasse um confronto de programas antagônicos. De um candidato do trabalho contra um candidato do capital. Nada disso.
 
A começar pelos candidatos petistas, a única preocupação era anunciar a prioridade fisiológica que a cidade receberia a partir de eleger um alcaide ligado partidariamente ao presidente da República. Ou seja; nos 24% de abstenções mais os brancos e nulos, não é fantasia afirmar que uma parte significativa se manifestou politicamente. Contra a despolitização da política.
 
O outro ponto essencial de análise é recuperar algo que tem sido deliberadamente omitido nas análises conjunturais dos grandes meios de comunicação. Trata-se de destacar que, simultaneamente aos índices altíssimos de votos de protesto nesta eleição municipal, há os índices de pesquisa de Heloisa Helena, independentemente do instituto que se proponha a antecipar a campanha de 2010. Heloisa navega entre 12 e 18%, sempre na frente de Aécio, e bem acima de Dilma Roussef.
 
Há, portanto, ao analisar os dados e seus contextos, um imenso espaço de disputa favorável ao PSOL quando a discussão voltar a se nacionalizar. E é nesta perspectiva que o Partido tem que considerar uma vulnerabilidade básica a superar.
 
Se não há dúvidas quanto à manutenção de critérios franciscanos no estabelecimento das fontes de recursos, não pode haver preconceito quanto a uma necessidade de discutir os critérios de aliança partidária, caminho único na solução da tragédia da falta de tempo de televisão oficial. Não podemos mais reproduzir exemplos incontestáveis, como os da própria Heloisa Helena em 2004, que viu reduzidos à metade os índices com que iniciou a campanha de televisão.
 
Este, me parece, é o aprendizado sobre o qual temos que tirar conseqüências concretas.  Ou partimos para uma revisão no rigor anti-aliancista de período eleitoral, sem ferir princípios, mas com capacidade de aceitar diferenças, ou abrimos mão de disputar essa longa parcela da população ansiosa para que o embate entre opostos ideologicamente se reinstale nos processos políticos que estão por vir.   


Milton Temer
é jornalista e presidente da Fundação Lauro Campos.