Os efeitos da crise mundial na economia brasileira PDF Imprimir E-mail
Economia e Infra-Estrutura
Luiz Filgueiras   
Qua, 19 de novembro de 2008 16:36
CriseOs impactos da atual crise econômica mundial – difundida a partir da crise dos mercados imobiliário e financeiro dos EUA – sobre a economia brasileira têm duas portas de entrada interligadas. A primeira é o mercado financeiro, em razão da desregulamentação da conta de capital do balanço de pagamentos do Brasil, que concede uma grande liberdade aos fluxos de capitais, para a compra e venda de ações, de títulos da dívida pública e de outros papéis.

Nesta porta, os impactos têm sido imediatos e severos: queda da bolsa de valores, subida do risco Brasil e desvalorização do câmbio; em razão da venda de papéis brasileiros (ações, títulos públicos e outros papéis de empresas) pelos fundos de investimentos, com o objetivo de compensar as perdas nos mercados americano e europeu, bem como em busca de uma maior segurança nos títulos do governo dos EUA. Adicionalmente, a redução da liquidez nos mercados financeiros internacionais vem implicando aumento do custo do (re)financiamento externo para as empresas brasileiras, além de diminuição do crédito na economia brasileira (para exportadores, agricultura, bancos menores e consumo de bens duráveis). Para agravar ainda mais a situação, empresas exportadoras vêm tendo elevados prejuízos no mercado de câmbio, em operações com derivativos.

Com a transformação da crise financeira em crise econômica geral, especialmente na ausência de controle dos fluxos de capitais, a fuga de capitais tende a se acentuar, em que pese o acúmulo de reservas da ordem de US$ 200 bilhões – o que implicou, até o ano passado, a redução conjuntural da vulnerabilidade externa do país. No entanto, a motivação dessa fuga não dependerá, principalmente, dos chamados “fundamentos da economia”: controle da inflação e trajetória da dívida pública, entre outros. A razão maior se situará, como das outras vezes, na própria dinâmica da especulação financeira, isto é, a crescente aversão ao risco levará à busca por maior segurança através da aquisição de títulos do governo americano.

Essa nova realidade tem levado à desmoralização do discurso liberal em todo o mundo, com o Estado aparecendo, mais uma vez, como é comum nos momentos de crise do capitalismo, como o “salvador da pátria”. Mesmo assim, não há a menor segurança de que o pacote de US$ 850 bilhões (6% do PIB dos EUA) para compra de ativos podres em mãos das instituições financeiras privadas, que foi recentemente aprovado com dificuldades pelo Congresso dos EUA, resolva, no curto prazo, a crise financeira. Além disso, é certo que também não impedirá a difusão e o aprofundamento da crise para a esfera produtiva e os demais países do mundo. E isto se deve, sobretudo, à amplitude e profundidade da desregulacão e liberalização dos mercados financeiros ocorridas nos últimos trinta anos, mas também ao atraso do Banco Central dos EUA em intervir mais prontamente e com instrumentos adequados – pois julgava, inicialmente, que a crise era de liquidez e não, como se evidencia agora, de solvência.

No Brasil, o agravamento da crise obrigou o governo a mudar o discurso da “blindagem” ou do “descolamento” da economia brasileira em relação aos EUA, levando o Banco Central do Brasil a adotar as seguintes medidas: 1- leilões para venda de dólares com cláusula de recompra, vendas de dólares das reservas e vendas de dólares no mercado futuro; 2- reduções sucessivas dos depósitos compulsórios e 3- edição de uma medida provisória que possibilita ao Banco do Brasil e à Caixa Econômica Federal comprarem instituições financeiras privadas e tornarem-se sócios de empresas construtoras. Por outro lado, a estratégia de elevação da taxa de juros – num momento de clara tendência de desaceleração da atividade econômica –, já é questionada no interior do próprio governo. No entanto, essa não vai ser uma escolha trivial; numa economia sem controle dos fluxos de capitais, a elevação da taxa de juros também é utilizada com o objetivo de tentar impedir a fuga de capitais nos momentos de crise. Ademais, as restrições externas – com redução dos saldos da balança comercial e crescimento do deficit da conta de transações correntes – forçarão a redução do ritmo de atividade econômica. E, aqui, encontra-se o outro caminho de entrada da crise na economia brasileira.

Essa segunda porta de entrada da crise é o comércio internacional, o que inevitavelmente ocorrerá em razão da recessão que já vem tomando conta dos EUA, Europa e Japão. Neste caso, os impactos no balanço de pagamentos – que já vinha se deteriorando antes da crise, em razão da valorização do real e do salto no montante das remessas de lucros e dividendos das multinacionais –, se fará sentir através da queda da demanda e dos preços internacionais das commodities, que representam parte majoritária das exportações do país. A diversificação dos destinos das exportações brasileiras – ocorrida nos últimos anos em virtude do crescimento dos países da periferia do capitalismo – atenua, mas não resolve o problema. A crise tem caráter global; assim como o crescimento dos últimos anos da economia mundial foi alimentado pela dinâmica da economia dos EUA e da China, isto também vale (em sentido oposto) para esse novo momento, de reversão do ciclo econômico.

Desse modo, em ambos os casos, pelas portas financeira e comercial, a vulnerabilidade externa da economia brasileira voltará a se manifestar, com impactos sobre as trajetórias da inflação e da dívida pública; o que restringirá a capacidade de crescimento a partir do mercado interno, afetando o nível de emprego. A divulgação de estatísticas positivas sobre o desempenho (passado) da economia não resolve o problema.

Sem dúvida, todos os países serão atingidos pela crise global. Entretanto, o grau de “sofrimento” de cada um, no curto e longo prazos, dependerá de suas respectivas inserções internacionais (comercial e financeira) e de suas políticas econômicas. Aqueles com menores restrições ao movimento dos fluxos de capitais e dependentes de uma pauta de exportação calcada, sobretudo, em commodities e produtos industriais com baixa intensidade tecnológica tenderão a sentir mais os efeitos da crise. E isto é mais verdadeiro ainda em virtude da pequena margem de autonomia da política econômica desses países – como é o caso do Brasil –, restando-lhes, em geral, a elevação das taxas de juros.

A taxa de crescimento da economia em 2008 deverá ser afetada, por razão óbvia, pelo menor crescimento do último trimestre deste ano, mas o resultado final deverá apresentar um valor próximo dos últimos dois anos. Entretanto, dada a problemática inserção comercial-financeira do país na economia internacional – com uma grande dependência das exportações de commodities e livre mobilidade dos fluxos financeiros –, a continuação e aprofundamento da crise comprometerão seriamente o crescimento no próximo ano. E isto será mais verdadeiro ainda se a resposta à crise for a manutenção da mesma política econômica implementada até agora, pois isto implicará, como é de praxe em seu receituário, a retomada do aumento da taxa de juros e o aumento do superavit fiscal primário, isto é, mais aperto fiscal e monetário.

A alternativa a essa política, no curto prazo, é o controle dos fluxos de capitais (regulação da conta capital), a centralização do câmbio, o controle seletivo das importações, uma forte redução do superavit fiscal primário, a renegociação das dívidas das famílias, a estatização de instituições financeiras e do crédito, a ampliação do seguro desemprego e a manutenção dos gastos sociais. E, no médio e longo prazo, a re-configuração da pauta de exportações do país, em direção a produtos com maior intensidade tecnológica, maior valor agregado e com maior dinamismo no mercado internacional. Entretanto, a opção por esse outro tipo de política econômica em um momento de crise não é trivial. Ela implicaria, sem dúvida, confronto com os interesses econômicos e políticos do capital financeiro, além de exigir uma ação consciente por parte do Estado – com a implementação de políticas industriais, comerciais e tecnológicas – cujos resultados não serão imediatos.

Luiz Filgueiras é professor da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal da Bahia (FCE/UFBA) e membro do Núcleo de Estudos Conjunturais (NEC) dessa faculdade.


Artigo publicado na edição de novembro do Jornal dos Economistas.
 
274 Votes

43 Comments

Feed
  1. Foi muito util para mim... Só que precisaria de um Resumo. Mas foi bem adaptado. Sabemos que a crise vem afetando, sim, o Brasil e que é muito importante ficarmos por dentro de tudo. Obrigado!
  2. Parabéns para quem escreveu esse artigo. Ele me ajudou muito! Obrigada!
  3. Ajudou-me muito. Muito obrigado.
  4. O artigo foi de grande valia para mim, pois ele continha as informações necessárias para aprimorar os meus conhecimentos sobre a crise mundial e os seus efeitos no Brasil. Parabéns ao autor(a). Beijos. Obrigada!
  5. Meus parabéns. Muito bom o texto. Ajudou muito os interessados sobre o assunto!
  6. Muito obrigada. Irá me ajudar bastante na prova do ENEM. E o artigo é muito bom. Valeu!
  7. Eu adorei esse saite. Me ajudou muito!!! OBRIGADA.
  8. O aitigo é muito produtivo, instigante e possibilita a compreensão, facilitando uma melhor abordagem sobre um tema dissertativo. Obrigado.
  9. Estou lendo várias informações da atualidade para fazer uma boa prova do ENEM, ainda mais que agora o mesmo se tornou, em muitas universidades, a primeira etapa do vestibular tradicional. O artigo é de grande valia e creio que vai me ajudar nas provas que irei fazer; certamente é interessante para o conhecimento próprio e para a vivência do dia-a-dia. Em se tratando da charge, penso que a crise mundial, por mais que pareça não estar nos afetando, esta cada vez mais presente. Uma consequência disso é o desemprego em massa, ocorrido principalmente em estabelecimentos de grande porte, como industrias e fábricas brasileiras e mundiais. Vê-se, pois, que de acordo com as informaçoes lidas, fica muito mais facil entender os "passos" da crise (como tudo começou e como vem se desenrolando) e é claro que com uma dose de humor (charge satírica). Parabéns pelo artigo muito bem articulado e redigido. Obrigado!
  10. Muito bom, me ajudou muito em uma redação. Obrigada mesmo!
  11. Obrigada. Eu sei que isso vai me ajudar no vestibular.
  12. Muito bom. Quem não sabe o que acontece no mundo, agora vai saber!!!
  13. Obrigada, pois isso que vocês resumiram sobre a crise me ajudou muito no trabalho da Escola... Brigadaa!!!
  14. Obrigado, adorei o desempenho de vocês, consegui a realização do meu trabalho... Obrigadooooo!!!
  15. Gostei muito do texto. Ele me ajudou bastante em uma redação. Obrigado. Parabéns.
  16. Ficou perfeito este texto. Magnífico.
  17. Ficou muito bom.
  18. axei muito melhor essa tradução para a nossa linguagem dos adolescente!! naum podia ser melhor XD
  19. 'Muito obrigada, esse texto irá me ajudar muito em uma prova no etec. (:
  20. Esse texto me ajudou para um relatório na escola. Obrigado =)
  21. Este comentário é muito importante porque a crise de hoje é tão seria quanto a de 1929, e nesse aspecto não é bom o presidente brincar, principalmente fazendo piadas.
  22. O texto ficou muito bom, amplo e bem objetivo.
  23. Muito bom...
  24. Muuito obrigado!!! O texto me ajudou muito. Fiz uma redação, ela ficou sensacional!!! Tirei 10...
  25. Achei esse assunto meio delicado, pois afetou várias pessoas que antigamente ganhavam bem e agora estão desempregadas; tudo por causa disso. Afetou o mercado financeiro, entre outras coisas importantes, tanto para empresas quanto para empresários. Esse texto me ajudou em questao da minha redaçao escolar. Espero, com o pouco de conhecimento sobre esse assunto, poder passar pelo menos um pouco do que eu aprendi lendo esse texto. VALEU, MUITIIIIIIIIISSSIIIIIIIMO OBRIGADO!!!
  26. Parabéns pelo texto. Ele explica de uma maneira bem aberta sobre a crise e vai me ajudar a fazer meu trabalho!!!
  27. Interessante isso, mas seria melhor um resumo. Pelo menos fiz uma redação na escola bem legal!!!
  28. Muito bom o desempenho de vocês para nos ajudar a ter um bom desempenho e entender sobre a crise que afeta o Brasil.
  29. Gostei muito!! Mas eu precisaria de um resumo.
  30. Parabéns. O artigo é essencial para uma absorção ampla sobre os efeitos da crise mundial no Brasil.
  31. A crise econômica com certeza vai repercutir em todo o mundo. Esse texto me ajudou muito a entender um pouco mais sobre ela e o que eu vi é que se cada pais estiver bem preparado e adotar medidas que ajudem na sua diminuição ele não sofrerá tanto.
  32. Este texto me ajudou um pouco, para uma redação de escola. Mas valeu a pena ler, e entender um pouco mais sobre esta Crise Mundial. Obrigada!
  33. Adorei! Precisei desta informação para meu trabalho de escola. ESTOU NO 4 ANO.
  34. muito abrigado fiz uma redaçao para meu cursinho (W,r) com base nessas imformacoes
  35. Ficou muito bom. Parabéns.
  36. Muito bom mesmo, me ajudou bastante
  37. MUITO OBRIGADO POR ME AJUDAR A REALIZAR MEU TRABALHO. GANHEI MEUS PONTOS CERTINHOS QUE PRECISAVA....
  38. Bom. Parabéns!!! Você me ajudou a realizar meu trabalho. Muito obrigada. E... adorei a imagem.
  39. Estou estudando para um concurso público que pede para ler sobre a economia do Brasil. Procurei matérias sobre a crise mundial em torno da economia e achei este texto. Muito bom. Vai servir muito para mim. Obrigado para quem fez. Meus sinceros agradecimentos.
  40. Valeu. Tá de parabéns.
  41. Este texto é bem grande e eu queria um resumo. Mas estou com a minha vó e ela não conseguiu fazer um resumo pra mim. Eu preciso desse resumo para amanhã.
  42. Parabéns por dar informação a quem precisa!!!
  43. Pode parecer que a crise de hoje não está afetando o Brasil. Mas esse artigo é muito importante para que todos percebam essa importância e saibam qual é a verdade. Parabéns!

Add Comment

Avalie este artigo

274 Votes

Itens relacionados