Simonal, a reabilitação PDF Imprimir E-mail
Arte e Cultura
Urariano Mota   
Dom, 07 de junho de 2009 15:26
Simonal
Wilson Simonal, alcaguete da ditadura
Com o filme Simonal - Ninguém sabe o duro que dei, começou a reabilitação de Wilson Simonal. Não se conclui outra coisa, quando se lêem os artigos publicados em todo o Brasil. Em todos os jornais, os críticos mais parecem uma orquestra afinada para uma só composição, para um só samba de uma nota só. Em toda a mídia se repetem as saudações ao documentário, à sua imparcialidade etc. etc.


Na Folha de S.Paulo, no texto com o título épico "Simonal refaz saga do cantor", entre outras coisas se escreve:


"Aconteceu no final de 1971. Por suspeitar que estivesse sendo roubado, o cantor teria mandado bater no contador de sua empresa. Só que o homem vai parar no Dops (Departamento de Ordem Política e Social, hoje extinto), onde é torturado. Não demora até que os jornais liguem as pontas - não necessariamente cobertos de verdade - e publiquem a manchete: 'O cantor Wilson Simonal é informante dos órgãos de segurança do Estado´...

 

Mais que biografar a ascensão e queda meteóricas de um ídolo - e isso é feito de maneira empolgante -, o documentário reescreve a saga de Simonal para que, conhecendo finalmente sua história, o Brasil possa absolvê-lo de coisas que talvez ele nem sequer tenha feito."

 

Preconceitos raciais e sociais

 

Observem que:


1. O cantor "teria mandado bater no contador". Teria mandado, em lugar de mandou.

2. "...o homem vai parar no Dops (Departamento de Ordem Política e Social, hoje extinto), onde é torturado". Por acidente, ele foi parar no Dops.

3. "...o documentário reescreve a saga de Simonal para que, conhecendo finalmente sua história, o Brasil possa absolvê-lo de coisas que talvez ele nem sequer tenha feito". Absolvê-lo... Não demora, a família entrará com processo na Anistia.

 

Por falar em anistia, artigo no Jornal do Commercio, do Recife, é mais explícito:

 

"A chance de anistia de Simonal - Filme conta história de cantor que morreu com fama de dedo-duro, mas foi mesmo uma vítima da intransigência."

 

No UAI, de Minas, a reabilitação continua:

 

"Nos dias de hoje, a maioria das pessoas que conhecem o assunto acredita na tese de que Wilson Simonal foi derrubado por uma rede de boatos, somada a preconceitos raciais e sociais que levavam, em muitos grupos, a um estado de desconforto frente ao sucesso do cantor. Simonal pende nitidamente para este lado."

 

Condenado ao ostracismo

 

No Jornal do Brasil, do Rio, o mesmo samba:

 

"Com um design e produção impecáveis, o trio de diretores Cláudio Manuel, Micael Langer e Calvito Leal tenta também trazer à tona a perseguição que o cantor sofreu, após a suspeita de que ele estava a serviço do Dops, na época da ditadura. Recheado de entrevistas, o filme tem o mérito de ser, em grande parte, imparcial. Mas faltam depoimentos e nomes de artistas que efetivamente promoveram o boicote... Numa montagem esperta, o papel de bicho-papão ficou só com os jornalistas do Pasquim que participam do filme: Sérgio Cabral, Ziraldo e Jaguar. Este último, em destaque, é colocado pela edição nos momentos antagônicos, em contraponto a considerações positivas sobre o cantor. Seria alguma forma de revanche? O público é quem decide."

 

Em O Globo, entre outras louvações, transcrevem-se as palavras de Nelson Motta, "Simonal virou um tabu, um leproso, um pária..." Mas o modo mais parcial vem do Guia da Semana, de São Paulo, em editorial (!):

 

"No início da década de 70, Simonal percebeu que estava sendo roubado por seu contador. De pavio curto, o cantor contratou um grupo para dar uma surra no traidor. Porém, o episódio envolveu agentes do Dops, e o obscuro fato fez com que se espalhasse a notícia de que o músico era informante do regime militar. Sem provas contra ou a favor do artista, Simonal foi condenado ao ostracismo, morrendo como um desconhecido em 2000."

 

falta absolver o cabo Anselmo

 

Parece ter desaparecido no espaço o texto de Mário Magalhães, quando era ombudsman na Folha de S.Paulo, em 30 de março de 2008:

 

"A verdade: em 1974, Simonal foi condenado por surra dada em um contador. No processo, levou como testemunha sua um detetive do Departamento de Ordem Política e Social do Estado da Guanabara. Ele assegurou que o cantor era informante do Dops. Outra testemunha de defesa, um oficial do 1º Exército, jurou que o réu colaborava com a unidade. O juiz sentenciou: Simonal era 'colaborador das Forças Armadas e informante do Dops´. Em 1976, acórdão do Tribunal de Justiça do RJ reafirmou a condição de 'colaborador do Dops´. Não foram inimigos que inventaram a parceria com o regime, exposta sem reservas pelos amigos de Simonal, que se dizia ameaçado por gente ligada 'a ações subversivas´."

 

Pelo andar da carruagem, não demora vão fazer um documentário que absolva o cabo Anselmo. Com a repercussão em uma só nota de toda a imprensa. Como agora, no filme desta semana: Simonal, a reabilitação.

 

19/5/2009

 

Fonte: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=538FDS003

 

 
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8 Comments

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  1. Pra mim, que sou daquela época, ele continua caguete. Nada mudou...
  2. Vejam no portal do Estadão um pequeno vídeo da entrevista do Paulo Vanzolini. Ele diz que o filme é uma falsificação. Disse que ouviu da boca do Simonal que ele entregava mesmo, e que se gabava disso.
  3. Estória mal contada e o pior é que este cidadão é uma vítima, segundo os idealizadores do filme. Que coisa linda! É, realmente a igreja catolica está certa, o negócio é ter santo.
  4. É, por tudo que li, o cara era dedo-duro mesmo.
  5. Nasci em 72... Difícil encontrar a verdade, por mais que eu leia...
  6. Cantores da antiga Rádio Nacional, como os saudosos Jorge Veiga, Black-Out, Jorge Goulart, Nora Nei, entre outros, não estão mais entre nós para explicarem as razões de terem sido discriminados e perseguidos. Cesar de Alencar também se formou no time do Simona que, realmente, era um bom show man. Mas isso não lhe tira a culpa pelos tão lamentáveis fatos que desonram qualquer ser humano. Somente pelo fato de ter falecido, não significa que agora seja um santo...
  7. O Simonal era gente fina. Ele só contratou um grupo para dar uma surra num pilantra, que acabou sendo torturado no DOPS. Fora isso, era um cara legal, que colaborava com as autoridades policiais e militares. E o filme é imparcial. É de pasmar: que é ser imparcial face à tortura?
  8. Estórias mal contadas permitem interpretações desencontradas!

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